ESCUTA CLÍNICA

June 17, 2020

 

 

A escuta clínica da análise bioenergética envolve mais do que o conteúdo do discurso verbal do paciente, envolve o que ouvimos em sua respiração, o que vemos nos seus olhos e gestos, o que sentimos da sua energia, o que ressoa em nós dos seus sentimentos. A escuta clinica da análise bioenergética é feita com “ouvidos, olhos e pés”, uma forma de dizer que ela é feita a partir de nossa presença psicossomática integral, total.

 

E a resposta do terapeuta, que é a interpretação, não envolve apenas o discurso verbal, pode tomar forma também de um discurso corporal, se traduzindo na proposta de um exercício que envolve a respiração, que envolve a musculatura mas não se reduz ao “corpo fitness” , nem mesmo ao “corpo medical care”.


O “exercício interpretação” da análise bioenergética, que nasce da escuta clinica não é uma ginástica para retirar um sintoma à maneira da medicina alopática. Ele se dirige à auto apropriação psico somática do paciente ele faz parte do seu processo de autoconhecimento, apropriação de si mesmo e a autodeterminação.

 

Como fica, de que jeito é feita, para que serve a escuta na clinica da análise bioenergética neste tempo em que estamos todos, pacientes e terapeutas mergulhados no mesmo mar de incertezas?

 

Como fica nossa escuta (de terapeuta) quando estamos sujeitos às mesmas angustias de sobrevivência? De que jeito escutamos tendo as mesmas lacunas de informação e sujeitos aos mesmos sentimentos de impotência? Para que serve nossa escuta se só temos incertezas?

 

Como fica, de que jeito é feita, para que serve a escuta na clínica da análise bioenergética neste tempo em que ficamos sem o chão, sem as paredes, sem os objetos de apoio de nossas salas? Como escutamos “bioanaliticamente” on-line?

 

Para que serve esta escuta sem a presença do paciente ao alcance das mãos da nossa própria presença? A resposta a estas perguntas vem de compreender que o elemento mais determinante da relação analítica ou psicoterapêutica é a ética que a norteia, mais até do que a metodologia adotada e mais do que o setting físico definido pelos objetos e pelo local. Sem a ética especifica à escuta clinica esses dois elementos não sustentariam a função à que se propõem.

 

Que função é esta e qual é a ética que a permeia para que ela se cumpra?

 

Para pensar esta pergunta é muito pertinente uma comparação que Scott Baum fez entre a câmara hiperbárica e a relação psicoterapêutica. Ambas, reflete ele, são parte do desenvolvimento evolutivo, do saber do humano: a câmara hiperbárica apresenta condições de saturação de oxigênio e de pressão do ar que não existem naturalmente na Terra, e foi inventada para curar condições médicas como queimaduras extremas; a relação psicoterapêutica, por sua vez, é um modelo único de relação que também não reproduz nenhum outro modelo de relacionamento natural e é utilizada para a cura de danos criados em outros relacionamentos. Entendendo cura como a abertura para novas possibilidades diante das demandas da vida.

 

Para que este objetivo de cura se cumpra, para que a psicoterapia seja de fato esta “câmara segura” é necessário que tudo que se passa nesta relação – diferente de qualquer outra relação natural - ocorra em função do paciente, quer dizer do seu bem-estar, da sua autonomia de escolha, da sua autodeterminação. É esta a especificidade que justifica que uma pessoa busque uma psicoterapia: a possibilidade de ocupar o centro sempre, pelo tempo que lhe for necessário, sem outra demanda por parte do terapeuta que não sejam as suas determinações para que a relação psicoterapêutica ocorra: o pagamento, o horário e local e outra determinação contratual afins. É esta a função da relação psicoterapêutica, a função da escuta clinica da análise bioenergética.

 

A ética do terapeuta para levar a cabo esta função é poder estar presente em si mesmo, saber de si mesmo e ao mesmo tempo se abster, explicita e implicitamente, de qualquer demanda e expectativa de ser o centro no contexto desta relação: quer seja sua necessidade de ser amado ou admirado ou reconhecido, ou servido, ou seguido, ou...

 

As suas demandas que devem ser satisfeitas, para que ele entre como terapeuta numa relação, são as que devem ser explicitas no contrato: pagamento, local, horário e afins.

 

Neste sentido, nestes tempos de incertezas tudo o que podemos fazer – e não é pouco – é continuarmos capazes desta escuta clinica; é continuarmos a ser analistas bioenergéticos para nossos pacientes e sermos pacientes para nossos terapeutas.

 

Porque, as nossas técnicas, nossos “exercícios interpretação”, nosso setting feito de objetos e nosso setting feito com nossa capacidade de contato visual, nossa possibilidade de escutar o conteúdo verbal assim como sentir o ritmo da respiração, tudo isto e mais vai se organizar on-line sob o “comando” de habitarmos nosso corpo.

 

[1] Baum, S: CONTAINMENT, HOLDING, AND RECPTIVITY: SOMATOPSYCHIC CHALLENGES. Bioenergetic Analysis. (2017) Vol. 27. Psychosozial-Verlag. Geissen, Gernmany

 

 

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