ENVELHECIMENTO E A VIDA AMOROSA

Fui questionada se uma mulher de mais de 60 anos pode reconstruir sua vida amorosa. Tem sido consenso, na voz do povo, que a reconstrução amorosa é mais fácil para o homem mais velho do que é para a mulher mais velha, se estivermos fixados somente no aspecto da sexualidade.

O que percebemos acontecer é que a carga sexual que uma mulher jovem pode provocar no homem, tanto jovem quanto mais velho não é a mesma carga sexual que a mulher mais velha convencionalmente provoca. De maneira geral biologicamente essa é a nossa realidade. Psiquicamente nós temos uma estrutura muito mais complexa do que essa equação biológica, mas que leva em conta essa realidade.

Então, essa ideia de que uma mulher mais velha não tem atrativos eróticos suficientes para ter um parceiro sexual é bastante complicado de lidar, por isso a dificuldade, tanto de tratar desse assunto, quanto de tratar em terapia uma mulher de 60 anos que acaba de ser abandonada pelo marido, trocada por uma mulher de menos de 30 - situação mais clichê do que essa, impossível.

E aí, o que você pode trabalhar, como você pode dar suporte para esse luto, sem entrar naquela fala fácil de “vida começa aos 60”, “você vai reconstruir a sua vida”, quando a realidade não é bem assim.

Por outro lado, estou convencida de que uma mulher nessa situação pode sim encontrar ajuda numa psicoterapia. Só que, inicialmente, não é a ajuda que ela pensa que vai ter.

A ajuda é na direção de buscar seus recursos internos de auto realização.

A ajuda será na direção de ela se apropriar de si mesma, de se apropriar de uma vida como sujeito dela mesma. E desconstruir aquela vida voltada para ser o objeto de afeto bem-sucedido do afeto de alguém.

Se a razão de vida desta mulher foi a de ser escolhida e ter sucesso como alguém que foi escolhido por um bom partido, quando isso acaba ela acaba também.

Partindo desse cenário, você pode imaginar porque eu acredito que essa nova geração não vai sofrer tanto com esse fantasma que atormenta as mulheres desde sempre.

Porque na medida que a mulher tem a sua própria vida construída, a sua autoestima, a sua auto referência e sua identidade, ela não está mais organizada em torno de ser a mulher de alguém. A relação passa a tem uma importância na vida pela que ela é. Algo que nos enche de alegria e enriquece o dia a dia.

A relação amorosa é a cereja do bolo, mas a mulher tem ainda um “bolo inteiro” que é a sua própria vida.

E, se em algum momento, há uma separação porque o amor terminou para alguém ou porque alguém morreu, vai doer e eu espero que doa - no sentido de que espero que a pessoa seja humana o suficiente para ter emoções - mas a vida dela não terá terminado.

Enquanto a pessoa estiver respirando e pulsando alguma coisa vai ser renovada!

A vida vale tudo o que se quiser e se puder conseguir. Principalmente se é possível buscar os recursos internos enquanto a pessoa que se é.


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